Em Recife ou no Recife? - Português na Rede

Em Recife ou no Recife?

É obrigatório o uso do artigo antes do nome "Recife"?

Não existe na gramática nenhuma regra específica sobre esse assunto.

"Quê?!" - dirão alguns - "Mas e aquela regra que diz que todo topônimo originário de um acidente geográfico é antecedido pelo artigo definido?"

Lenda gramatical. Como dissemos, não existe - repetimos, não existe - na gramática nenhuma regra nesses termos.

Se assim fosse, diríamos "Moro na Chã Grande", pois a palavra "chã", sinônimo de planalto, designa um acidente geográfico.

Mas ninguém diz "Moro na Chã Grande", nem os moradores dessa cidade do Agreste pernambucano, nem os que defendem a obrigatoriedade do artigo masculino antes do nome Recife baseados na regra que é uma lenda.

Logo, podemos afirmar com convicção que gramaticalmente tanto faz, pode ser "em Recife" ou "no Recife".

Mas a questão não se encerra aqui, pois extrapola a gramática. Na verdade, diz mais respeito à sociolinguística, porque envolve história e tradição de um povo.

Não por acaso, as mais ardorosas defesas a favor do emprego do artigo antes do nome "Recife" foram feitas não por gramáticos, mas pela nata dos intelectuais da cidade.

Uma delas partiu do sociólogo Gilberto Freyre.

Em O Recife, sim! Recife, não!, o autor de Casa-grande & senzala afirmou categoricamente: "O recifense diz "Chegar ao Recife", "Vir para o Recife", "Sair do Recife", "Voar sobre o Recife".

O teatrólogo Waldemar de Oliveira, em Luzes da cidade, corroborou a opinião do Mestre de Apipucos de modo mais incisivo: "Isso de dizer "em Recife" é ignorância de gente do Sul, que não sabe muito de tais coisas..."

Conclusão: que as pessoas de fora digam "em Recife" é até aceitável, pois elas não conhecem nossa história e tradição.

Mas ouvir um recifense dizer "em Recife" é clara demonstração de desconhecimento ou, pior, de indiferença às coisas da terra.

18 comentários:

Mel disse...

Sem contar que , " o Recife", " do Recife ", "no Recife ". " para o Recife ", é muito mais sonante e bonito !

Gabriel disse...

Não entendi. Se "tanto faz" usar o artigo, por que a conclusão de que o não uso do artigo, por parte do recifense, é desconhecimento e indiferença às coisas da terra?

Laércio Lutibergue disse...

Gabriel,

Gramaticalmente tanto faz.

Em termos de tradição regional, não.

O povo do Recife
consagrou o artigo antes do nome Recife, ou seja, sempre disse "no/do/pelo Recife".

Essa característica deve ser respeitada, se não pelos de fora, ao menos pelos de dentro.

Peço-lhe que releia o texto com atenção, pois nele está clara a distinção entre o fato gramatical e o não gramatical.

Abraço.

Anônimo disse...

Respeito a opinião de todos mas não acho bonito O Recife. Em Recife é muito mais sonoro, nasalando e alongando a sílaba re. E no mais, acho preconceituoso o modo como são tratadas pelo blogueiro as pessoas que são daqui e falam em Recife, como eu. Falo por opção e não pelo desconhecimento da bobagem sociológica.

Anônimo disse...

Concordo...

Leonardo Melo disse...

Ótima explicação, a tempos gostaria de saber o porque do uso do artigo, e descubro que o bairrismo não tem limites.

Pedro Filho disse...

Segundo o Teatrólogo Waldemar de Oliveira, nos do sul e sudeste somos analfabetos.

O Waldemar de onde voce tirou essa conclusão,para sair por ai dizendo coisas que ofendem as pessoas.

As pessoas devem medir suas palavras antres de dizer ou escrever.

Laércio Lutibergue disse...

Pedro, você é péssimo em compreensão de texto.

Vou ajudá-lo.

Em determinado trecho, eu digo que "em/no Recife" nada tem a ver com a gramática: "Mas a questão não se encerra aqui, pois extrapola a gramática. Na verdade, diz mais respeito à sociolinguística, porque envolve história e tradição de um povo".

Mais adiante cito o sociólogo Gilberto Freyre: "Em O Recife, sim! Recife, não!, o autor de Casa-grande & senzala afirmou categoricamente: 'O recifense diz Chegar ao Recife, Vir para o Recife, Sair do Recife, Voar sobre o Recife".

Quando o teatrólogo pernambucano Waldemar de Oliveira, citado no texto, disse que "em Recife" é "ignorância de gente do Sul", estava constatando que as pessoas do Sul desconhecem a tradição relatada por Gilberto Freyre, que as pessoas da terra dizem "o Recife".

Lembro-lhe, Pedro, que uma das acepções da palavra "ignorância", segundo o Aurélio, é "Estado de quem ignora ou desconhece alguma coisa, não tem conhecimento dela".

E foi a essa "ignorância" que se referiu Waldemar de Oliveira.

Boa sorte e espero que, a partir de agora, você comece a ver a vida com os olhos do entendimento, e não da discórdia.

Cab disse...

Sou recifense e falo "em Recife", nata intelectual? Pra mim o nome disso é frescura. =)

Mas obrigado por tirar minha dúvida a respeito do que seria gramaticalmente correto. =]

Laércio Lutibergue disse...

"Cab", pode ser "frescura", mas é inegável que a tradição é usar o artigo.

Acabei de revisar mais de 50 livros editados no Recife nos séculos 18, 19 e 20, que serão republicados numa série especial sobre a cidade.

E em todos o nome "Recife" aparece precedido de artigo.

Abraço.

Alessandra disse...

O "politicamente correto" (vamos ser suaves) está afetando a interpretação do texto por alguns leitores.

Parabéns por mais um excelente post!

Anônimo disse...

Morei uns dez anos fora do estado e foi aí que percebi claramente que aqui, tradicionalmente, não usamos artigos a tôa.

Exemplos,

Quem fez isso?

Recifense: "Foi fulano!"
Qualquer outro: "Foi o fulano!"

De onde ela é?

Recifense: "Ela é de Recife!"
Qualquer outro: "Ela é do Recife!"


Acredito que a gramática apresentada em livros não corresponde à falada.

O post é ótimo! Parabéns pelo blog!

Unknown disse...

Aqui no Rio dizemos: Ela é de Recife.

Unknown disse...

Aqui no Rio dizemos: Ela é de Recife.

George Lins disse...

Só se você for do sul ou do sudeste, que tem mania de colocar artigo antes de nome próprio.

George Lins disse...

Concordo plenamente.

George Lins disse...

Perdão Laércio, mas concordo com Pedro e Gabriel. Quem garante que a nata dos intelectuais sabia o que o povo falava? Só porque eram os intelectuais não quer dizer que estavam corretos ou que devia-se seguir o que diziam.
Sou de Recife e todos que conheço falam vou para Recife, moro em Recife, voo sobre Recife, saio de Recife.
O artigo é mania do pesoal das regiões sul e sudeste. Eles adoram colocar artigo antes de nome próprio.
Garanto que muitos me chamariam de nordestino ou analfabeto se me vissem escrever "muçarela", mas estou correto. E então? Sociolinguisticamente, "em Recife", "de Recife" retratam muito mais o povo recifense.

George Lins disse...

Pois é Laércio. E quem são os autores destes livros? São recifenses? Se forem, são da famosa "nata intelectual". Senão, são do sul ou do sudeste. Concordo com Cab.
Nada contra sua opinião e formação, mas você não percebeu em seu próprio blog que muitos recifenses defendem o "não" uso do artigo?
Só alguns questionamentos: você é recifense? Sempre morou em Recife?

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