A POLÊMICA DE "TWITTAR" - Português na Rede

A POLÊMICA DE "TWITTAR"

Alguns leitores opinaram acerca da postagem "tuitar ou twittar?".

Um deles foi a tradutora Jussara Simões, que defende uma postura mais nacionalista: para ela, nem "tuitar", nem "twittar", o negócio é "piar".

Para saber com mais profundidade a opinião de Jussara, sugiro a leitura dos comentários sobre "tuitar ou twittar?".

Foi o que fez o dileto amigo Yuri Brandão, professor e jornalista dos bons, que acompanhou todo o meu diálogo com Jussara e enviou a seguinte missiva eletrônica:

Por que piar com o verbo "twittar/tuitar"?

Amigo Lutibergue:

Desde a censura política que meu blogue de Português e Sociopolítica sofreu por estas terras das estradas perdidas – que sempre levam a lugar nenhum –, reservei-me às leituras e às mensagens trocadas apenas com meia dúzia de seletos amigos e interlocutores do miolo "duro".

Tu já sabes dessa prosa, às vezes com mais ou com menos poesia. Também já estás ciente de que, no início de março, volto à labuta (como jornalista-articulista, é claro; a docência e a revisão e tradução de textos se mantiveram incólumes).

Minha nova página ficará hospedada no alagoano portal de notícias Cada Minuto, cujo leiaute e linha editorial vão aprimorar-se, e estreio como articulista no cenário nacional: o Mídia Sem Máscara, do mestre Olavo de Carvalho, abriu-se profissionalmente – para o "piar" de muitos – a esta jovem "alma impura"; talvez eu assine, ainda, uma coluna de Português (a Sociopolítica fica de fora) no nacional Vírgula.

As coisas caminham assim, meu querido; esta mensagem tem, no entanto, um propósito bem definido: comentar brevemente o debate entre tu e a leitora Jussara Simões (JPS).

Como o e-mail (ou devo, in casu – Latim pode? –, recusar o Inglês e empregar "endereço eletrônico"?) dela não está disponível nos blogues que assina, resolvi excepcionalmente te pedir um espaço no Português na Rede para dois dedos de "pio", hehe.

A ousada leitora (e isso é bom, porque a ousadia dela me parece salutar, descolada daquele coitadismo típico de muitas pessoas) sustenta que "piar" deve ter primazia em relação a "twittar"; ou melhor, primazia não: exclusividade!

Já tu, Lutibergue, preferes seguir, em língua, aquilo que em princípio representa a maioria.

Desde já eu pio contra o verbo "piar", se este se atrever a designar a emissão de opiniões no microblogue (os que rejeitam tanto a forma inglesa quanto essa minha optarão por, sei lá, "diário", ou "diário em rede", ou "diário virtual"?) Twitter.

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Antes de expor o motivo básico de meu posicionamento, faço uma sucinta (e necessária) digressão, assim como faria, no caso, meu mestre gaúcho Cláudio Moreno.

Particularmente, na esmagadora maioria das vezes, uso o vocábulo "sítio" em vez do inglês site. Isso não se deve, porém, à repulsa injustificada e injustificável que geralmete as pessoas têm ao Inglês; deve-se tão somente ao fato de que, em regra (eu disse "em regra"), as formas estrangeiras – chamadas, com aquele ar preconceituoso dos puristas fascistas, de "estrangeirismos" – vêm para preencher uma lacuna, e não substituir um uso vernacular já consagrado.

"Sítio" não encontra muita guarida entre nós, é verdade, mas entre os portugueses é corrente, e correto; sendo forma portuguesa, merece uso também aqui no Brasil, mas isso não nos permite levantar o dedo acusador e demonizar o popularíssimo e consagradíssimo site — ou os puristas da linguagem, assemelhados demais aos puristas raciais e, logo, preconceituosos, não lançam mão de internet ou marketing, por exemplo?

Nesse sentido, desprezam absolutamente "performance", já em nossos dicionários há tempo, em favor de "desempenho"? Conseguem grafar "portfólio", com estrutura do Inglês e acento característico da ortografia do Português, mas registrado em nossos dicionários? Não piam sobre o "t" isolado? Ou recorrem mesmo ao inglês portfolio (sempre em itálico, já que vocábulo de outra língua)? Ou legitimamente aportuguesam, antes dos dicionaristas, e grafam "portifólio" (forma que uso, e com o danado do "i", para desmanchar aquele encontro consonantal inexistente em nossa fonologia)?

E podem fazer isso, pois as regras de acentuação e ortografia são de superestrutura, tal qual a Constituição que rege um país, por exemplo. No nível estrutural, mais profundo, estão as disposições sintáticas e morfológicas (de qualquer língua); aí a "brincadeira" se torna bem mais séria...

Não bastasse, e para ficar apenas em um exemplo, essa gente totalitária – que de tão arrogante nos supõe seus aprendizes – prefere "etilômetro" a "bafômetro", mesmo este sendo infinitamente mais expressivo e igualmente adequado. Por que a preferência? Porque demonizam, também, os hibridismos, como a refutar, no fundo, a mestiçagem e fazer imperar sua suposta e pretensiosa pureza de raça. Só ingênuos não identificam a pureza linguística com a racial. Na impossibilidade desta, os valentes avançam para a área da linguagem, revelando antes do preconceito a própria ignorância.

Augusto Comte que o diga — coitado do vocábulo "sociologia"!

Quanto ao temível Inglês – para encerrar esta já longa digressão, pois não quero ser acusado de estelionatário do tempo (eu disse que seria breve) –, seu abundante uso não tem nada a ver (ou, vá lá, tem muito menos a ver) com a superioridade econômica e militar dos EUA ou mesmo com o complexo de vira-lata dos brasileiros (Nelson Rodrigues); ele se tornou a língua universal, e isso cresce ainda mais, devido ao menor número de flexões, ao número de verbos com menos formas, à não dependência de muitas informações acerca do gênero das palavras e por aí vai.

Não preciso lembrar que se trata de um idioma que importou muitas palavras, não é mesmo? Seria por isso subserviente? Sei que o argumento da leitora Jussara reside no uso desnecessário de uma forma estrangeira, e concordo com a essência disso, que não se aplica ao tal do "twittar", todavia.

Ademais, por que, então, nossos dicionários consignam on-line (ou online), performance...? A birra é só com o Inglês! E é ideológica, não verdadeira e tecnicamente linguística. Ou os puristas não usam "detalhe", porque vocábulo francês na origem? Preferem exclusivamente "pormenor", que nasceu entre nós, da locução "por menor"?

Paciência!

"Ah, mas mesmo assim isso não justifica utilizar site", alguém pode dizer, naquela histeria nacionalista (ufanista até) que só vai até à esquina. E eu concordarei, mas observando isto: (1) a forma inglesa está consagradíssima pelo uso; (2) podemos traduzi-la para o Português, o que nos dará, e já dá, o vocábulo "sítio"; e (3) podemos adaptá-la à nossa ortografia e fonologia, gerando o aprazível "saite" — que mantém, obviamente, a pronúncia, e não a grafia, do idioma originário, assim como ocorreu com black-out e bureau, respectivamente "blecaute" e "birô".

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Digressão encerrada, embora haja ainda muito pio a dar.

"Twittar", à semelhança de "portfólio", é de uma aberração ululante: conserva a estrutura do Inglês e reveste-se de uma aparência portuguesa, sem encontrar abrigo total em nosso sistema ortográfico, entretanto — o "tt" denuncia bem isso.

Então vamos adaptar ("traduzir" é outra coisa): "tuitar"; se quiserem, deixem o "w" no lugar do "u".

Por que não "piar", afinal de contas? Tudo bem que uma das traduções – não a única – de tweet é mesmo "piar", mas teremos honestamente de admitir que a solução caseira se mostra um tanto pejorativa.

Quando esse verbo assume um de seus significados – o de emitir opinião ou protesto –, a carga negativa está ali marcando presença: "Não pie sobre o assunto, você não entende nada"; "Muitos podem não gostar deste texto, mas ainda assim eu vou dar pio sobre o verbo piar"; "Não gosto de jogar com quem fica piando o tempo todo"; e assim avante.

Os exemplos são meus; podem pesquisar, contudo, aqueles que os dicionários registram quando "piar" significa "emitir opinião ou protesto" (aliás, a noção de "protesto" já traz em si uma oposição, uma reclamação, uma postura negativa em relação a algo ou alguém).

Minha relutância em empregar "piar" nesse sentido e contexto, prezada Jussara, não se deve à subserviência ao Inglês – ou a qualquer outra língua –, mas antes ao fato de eu não enxergar nesse verbo a fidedignidade semântica que as palavras devem ter com o recorte da realidade que representam.

Por todo o exposto, convido-a gentil e honestamente a estas reflexões, e também à seguinte: em língua, quanto mais liberdade e espírito democrático, melhor!

Isso não significa abonar sempre as formas linguísticas da crace trabaiadora ou do "estrangeiro invasor" — significa, em verdade, que o complexo de vira-lata não deve ser às avessas, subordinando-nos a alguns de nossos próprios preconceitos e pré-conceitos sem pé nem cabeça.

Por ora é isso. Abraço.

Yuri Brandão/Maceió

8 comentários:

Anônimo disse...

olá laércio, muito bom o artigo desse seu amigo, excelente mesmo!!!

sempre e bom ver um debate sério, fundamentado e bem escrito assim. parabéns por mostrar isso aqui no blog.

bjocas!

Fernanda Cansanção.

Anônimo disse...

Eu gostaria de ver uma boa resposta a estas linhas, que foram muito bem colocadas, até nos detalhes de um "sempre" e de um "em regra".

Gostei desta "casa"!

Saudações ao blogueiro e ao autor do texto

Ricardo Fernandes.

silvana disse...

ADOREI O TEXTO E O BLOG. NÃO CONHECIA.

COLOCAÇÕES LÚCICAS E EMBASADAS!

PARABÉNS PELO SEU ARTIGO LAÉRCIO.

:)

Laércio Lutibergue disse...

Fernanda:

Obrigado!

Ricardo:

A minha resposta já está no blog, "A polêmica de 'twittar' (2)".

Silvana:

O excelente artigo é do prezado amigo Yuri.

E a todos, saúde e paz!

Anônimo disse...

SHOW DE BOLA, TANTO O BLOG QUANTO O TEXTO!

parabéns aos dois companheiros, yuri (que já conheço na condição de leitor e o acho genial mesmo) e laércio (que vou acompanhar com entusiasmo a aprtir de agora).

Caio Nunes, professor de Filosofia e História, Maceió.

Anônimo disse...

Caro professor Yuri, lembra do que falei na mensagem sobre seu retorno? Era desses seus textos que eu estava sentindo falta! E estou com você: não gosto dos chamados estrangeirismos. Aportugueso tudo. Até quetichupe, para desespero das minhas filhas. Ainda não tenho, mas se um dia tiver, vai ser um tuiter. Abraços, Luzinário Macedo.

Anônimo disse...

Caro professor Yuri, lembra do que falei na mensagem sobre seu retorno? Era desses seus textos que eu estava sentindo falta! E estou com você: não gosto dos chamados estrangeirismos. Aportugueso tudo. Até quetichupe, para desespero das minhas filhas. Ainda não tenho, mas se um dia tiver, vai ser um tuiter. Abraços, Luzinário Macedo.

Yuri disse...

Caro Luzinário:

Agradeço seu comentário e me lembro sim de suas generosas palavras.

Peço que atente, porém, para isto: não sou contra os "estrangeirismos" —— aliás, nem gosto desse vocábulo, pois o sufixo grego "-ismo" apresenta-se-me, no contexto, com tom preconceituoso.

Eu sou contra o emprego DESNECESSÁRIO de vocábulos estrangeiros (para que "layout" se temos "leiaute", por exemplo?).

Somente isso.

No mais, que o Português (e outras línguas) se enriqueça mesmo com outros idiomas, e vice-versa, sem purismos autoritários (ou totalitários, o que é pior, porque mais severo, mais abrangente).

Sempre foi assim, e sempre será: é imprescindível para o desenvolvimento de uma língua (e de uma nação).

Em tempo: obrigado aos demais comentaristas e, em especial, ao amigo Laércio Lutibergue.

Por ora é isso. Abraço do Yuri Brandão

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