As palavras não têm sexo - Português na Rede

As palavras não têm sexo

O Jornal do Commercio publicou uma excelente série de reportagens sobre a difícil situação dos travestis em nossa sociedade.

Participei da edição/revisão da série e, em determinado momento, me perguntaram qual era o gênero da palavra "travesti".

Expliquei que "travesti" podia ser nome masculino ou feminino dependendo da pessoa a que se referisse.

Se fosse um homem travestido de mulher, seria "o travesti"; se fosse uma mulher travestida de homem, "a travesti".

À informação acrescentei o fato de a palavra "travesti" ser um particípio de origem francesa, o mesmo que "travestido".

E por essa razão a concordância lógica seria "o travesti Fulana", "o travesti Beltrana", "o travesti Sicrana", equivalentes a "o (homem) travestido de Fulana", "o (homem) travestido de Beltrana", "o (homem) travestido de Sicrana".


Posto isso, fui informado de que na série sairia "a travesti Fulana", "a travesti Beltrana", "a travesti Sicrana", pois o movimento dos transgêneros faz questão do uso do artigo feminino antes da palavra "travesti" quando ela se refere a uma pessoa nascida homem que se veste de mulher.

Entendi as razões do jornal, órgão democrático que é, mas até hoje não entendi as dos travestis.

Para mim, essa história de "a travesti Fulana" não passa de uma idiossincrasia sem nenhum embasamento linguístico.

O que o pessoal do movimento dos transgêneros precisa saber é que as palavras não têm sexo, e sim gênero.

"Cônjuge", por exemplo, é masculina, até mesmo quando se refere a uma mulher, como em "O prefeito presenteou seu cônjuge com um lindo par de brincos".


Portanto, não existe nenhuma atitude discriminatória em "o travesti Fulana", mas apenas um uso forçado pela lógica, pois, como dissemos, "Fulana" é um ser nascido homem e está travesti(do) de mulher.

Se existe algum problema, é com o uso da palavra "travesti”, que deixa explícito o fato de alguém estar vestido com uma roupa que não caracteriza seu sexo de nascença.


O resumo da história: quando nos referimos a uma pessoa nascida homem que se veste de mulher, o lógico é dizer "o travesti Fulana" e, se for uma mulher que se veste de homem, "a travesti Fulano".

12 comentários:

Antóvila disse...

Prezado Prof. Lutibergue,

Muito boa a explicação do texto, clara e coerente: de pleno acordo! Só me permita discordar em um ponto: na grafia de 'Fulana(o)', 'Beltrana(o)' e 'Sicrana(o)'. Ensina o Prof. Sacconi, em seu primoroso GUIA ORTOGRÁFICO E ORTOFÔNICO (à pág. 69) que "escrevem-se com iniciais minúsculas as expressões... c)fulano, beltrano e sicrano". É de todo correta essa afirmativa?

Laércio Lutibergue disse...

Prezado Antóvila:

A última reforma ortográfica oficializou a inicial minúscula dessas expressões.

Eu, porém, resolvi usar a maiúscula porque quis intencionalmente pessoalizar os exemplos citados no texto.

Abraço.

Roberto disse...

Prezado Lutibergue!

Desculpe se a pergunta não fizer nenhum sentido. Na verdade sou professor de Biologia. Mas o artigo feminino "a", tão desejado pela classe referida, não poderia ser adotado como um caso de silepse? Ou não tem nada a ver?

Muito grato!

Laércio Lutibergue disse...

Prezado Roberto:

Para haver silepse de gênero, é preciso que uma ideia esteja subentendida.

Por exemplo, "Recife é linda".

Recife é nome masculino ("o" Recife), mas o adjetivo está concordando com a ideia subentendida de "cidade".

E no caso de "a travesti Fulana", para um homossexual nascido homem e que se veste de mulher, como quer o pessoal do movimento dos transgêneros, qual a ideia subentendida?

Nenhuma, pois o que temos, como dissemos no texto, é "o travesti Fulana", ou seja, um homem travestido de mulher.

Alguma dúvida, Roberto?

Abraço.

Yuri disse...

Amigo Lutibergue:

Gostei do texto!

Muitas pessoas não atentam para o que você competentemente explicou.

Em relação ao uso de minúscula sugerido pelo(a) leitor(a) Antóvila, ainda há outro ponto, não é mesmo, Lutibergue?

Este: o último Acordo Ortográfico está em período de "vacacio legis"; convive, portanto, com a ortografia anterior até o dia 31 de dezembro de 2012.

E, nesse sentido, a minúscula não é obrigatória desde já.

Quanto à boa colocação do Roberto, a única silepse de gênero que enxergo em "a travesti Fulana" é "a [pessoa] travestida de Fulana", embora, contextualmente, essa "pessoa" seja do sexo masculino, é claro.

O que o amigo acha?

Por ora é isso. Abraço do Yuri Brandão

Laércio Lutibergue disse...

Prezado Yuri:

Sim, o mais recente acordo ortográfico está em período de "vacatio legis" e, portanto, neste momento estão vigendo as novas e as velhas regras.

Mas o fato, amigo, é que Português na Rede já adotou as novas regras e eu transgredi a lei.

No entanto, fiz essa transgressão deliberadamente, por achar que o artigo definido e o designativo "travesti", naquele contexto, determinam os nomes "fulano", "beltrano" e "sicrano".

Quanto à boa pergunta de Roberto, acho a silepse com "pessoa" forçada, pois esse substantivo é sobrecomum, vale para os dois sexos.

E no caso dos travestis eles querem se sentir o mais femininos possível, por isso acham que a forma "a travesti" acentua essa feminilidade.

Infelizmente, eles não percebem que essa forçação de barra apenas os leva a bater de frente com a lógica.

Saúde e paz, amigo!

Jefferson disse...

Cai no site procurando pela escrita correta do termo "arqui-rival", sobre futebol, nada ver com transgêneros nem como são chamados, mas por acaso também sou curioso por ciências humanas, especialmente línguas, e vou dar o meu pitaco sobre o assunto. Em primeiro lugar, o que é um homem? O que é uma mulher?

Segundo os últimos estudos científicos, o ser humano é composto pelo sexo mental e o sexo físico. O heterossexual é alguém que nasceu com o cérebro programado para sentir atração pelo sexo oposto, e, digamos (para não entrar em detalhes técnicos de Psicologia), satisfeito com o seu corpo. Já o homossexual seria o contrário: alguém com o cérebro programado para gostar do mesmo sexo. Quanto mais o cérebro do homossexual é próximo do sexo oposto, mais ele sente atração por viver como o sexo oposto, parecer com ele.

Por exemplo, o homem que nasceu com o cérebro parecido com o feminino é gay (sente mais atração por homens, como as mulheres). Quanto mais o seu cérebro for parecido com o feminino, mais ele desejará parecer, viver como mulher. Basicamente, uma travesti (homem para mulher) seria alguém que nasceu com os genitais masculinos e o cérebro bem feminino.

Se a travesti tem os dois sexos, porque ela é *o* travesti?

Se ela se sente bem dentro do estereótipo que dizem ser mulher, então a travesti pode muito bem ser chamada de "ela": o seu sexo mental é feminino. A lésbica que se sente homem também pode muito bem ser chamado por "ele", visto que o seu cérebro é masculino, o seu sexo mental é masculino, ela pensa como um homem.

E antes que venham me falar em "problemas mentais", lembro que o que hoje chamamos de homens e mulheres há alguns milhões de anos eram bactérias sem cérebro nem físico, depois células simples, compostas, peixes, répteis, muitas vezes assexuados, unissexuais, plurissexuais, até chegar ao estágio atual de mamíferos evoluídos que NÃO é o fim das transformações da vida no planeta terra.

Nada impede que em mais alguns milhões de anos tenhamos todos os dois sexos, pênis e vagina, como um dia já não tivemos nenhum dos dois...

Bom, é isso...

Laércio Lutibergue disse...

Prezado Jefferson:

Peço-lhe que releia o texto com atenção.

Não estou proibindo que "elas" sejam chamadas de "elas".

Mas apenas dizendo que não faz sentido o uso de "a travesti" porque, se assim fosse, seria "ela travestida de ela".

O cerne da questão, Jefferson, é a palavra "travesti", que significa "travestido".

Por isso a lógica está em "o travesti" (= o travestido).

E, como eu disse no texto, a feminilidade "delas" não é atingida quando se usa o artigo masculino, pois a minha mulher é "o meu cônjuge" e "o meu gênio do bem" e continua bastante feminina.

Abraço.

Jefferson disse...

Se a travesti é mentalmente uma mulher, como pode ser o travesti, o travestido?

Não estamos falando de um homem para ser o João, o Pedro, o Ricardo, o travestido, o travesti...

Estamos falando de alguém que tem o corpo de homem, mas a cabeça de mulher -- e vive em conformidade com a sua cabeça.

Uma mulher travestida de mulher?

Dizer o travesti é uma lógica parcial, considerando apenas uma parte do ser humano que é o corpo.

A palavra travesti também supõe que existem roupas de homens e mulheres (para se "travestir"), o que sabemos que é um engano. Roupas são apenas panos que qualquer um pode usar. As mulheres usam calças desde 1970. Na Escócia, os homens usam saia, como os egípcios, os gregos e os romanos usavam. E daqui em diante, as barreiras sexuais sem sentido tendem felizmente a desaparecer...

No mínimo, o nome travesti deve entrar em desuso depois dos últimos avanços científicos, como já vemos sendo usado o termo transgênero (ou transexual)...

Laércio Lutibergue disse...

Prezado Jefferson:

Respeito sua opinião e não vou polemizar.

Só quero lhe dizer que "mentalmente" é um conceito muito vago e, se for assim, há muita gente que é Napoleão Bonaparte mentalmente; há muita gente que é Einstein mentalmente; e até há os que são Jesus Cristo mentalmente.

Saúde e paz!

Jefferson disse...

Não é uma opinião, Laércio, para "polemizar" com você que é o "normal"...

Uma coisa é a esquizofrenia, a exemplo dos casos que você citou, onde um defeito cerebral (ou psicológico) leva a pessoa a delirar que ela é o que nunca foi. Ninguém é Napoleão, Jesus ou Einstein, óbvio que se trata de um desajuste. Já outra coisa é nascer com o cérebro do outro sexo, como os transgêneros. O cérebro dos "travestis" é do outro sexo -- para nós, que somos diferentes deles. O gay transgênero é mentalmente uma mulher, e a lésbica transgênero é um homem.

Esse fato não é uma opinião para polemizar, mas a comprovação das universidades de Londres e Estocolmo, procure no Google, se duvidar.

Opinião, a meu ver, seria dizer que travesti é doente porque nasceu com o corpo masculino e a cabeça feminina. Como eu disse antes, todos nós um dia fomos procariontes, fotossíntese, eucariontes, vida multicelular, animais simples, artrópodes, animais complexos, peixes, proto-anfíbios, plantas terrestres, insetos, sementes, anfíbios, répteis, dinossauros, mamíferos, aves, flores, dinossauros até alçar o patamar de mamífero...

A vida no universo não tem um padrão existencial, pelo contrário: ela viveu se modificando, se modifica e se modificará (sem direção aparente). Qualquer coisa que exista nunca teve eternamente a forma atual, tudo se modificou conforme o acaso da necessidade. Você nunca leu a teoria da evolução, Laércio?

Os travestis seriam doentes porque não são o seu espelho? Desde quando ser diferente da maioria é doença? Será que nós não somos os doentes na visão de um transgênero radical?

(como os heterossexuais...)

Diferença não é doença. Se o fosse, o homem seria doente porque não é mulher, o negro que não é branco, o japonês que não é chinês, brasileiro e argentino, americano e canadense, inglês e francês, espanhol e português, árabe, judeu. E vice-versa...

Tudo e todos, então, seriamos doentes, já que ninguém é igual a ninguém...

Todo mundo não sou eu e eu não sou todo mundo...

Se você precisa ver para crer, os fatos que lhe passei sobre o cérebro dos "travestis" foram comprovados pelo Ministério de Saúde francês, as universidades de Estocolmo e de Londres, pode confirmar no Google. Em breve, a Organização Mundial de Saúde deverá tirar as travestis da lista de problemas de saúde.

E todos esses um dia não tiveram sexo físico nem mental -- nem corpo...

Saúde e paz para você também.

Laércio Lutibergue disse...

Prezado Jefferson:

Encerro definitivamente esta discussão, pois nunca chegaremos a um consenso.

Estamos vendo a questão por prismas diferentes.

Obrigado pela participação.

E um bom fim de semana!

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