A presidenta do Brasil! - Português na Rede

A presidenta do Brasil!

Existe a possibilidade de, em breve, escutarmos a frase interjetiva que intitula este miniartigo.

Que poderia ser dita de outra forma: "A presidente do Brasil!"

Daria no mesmo, pois as gramáticas e os dicionários legitimam ambas as formas: "presidente", como um substantivo de dois gêneros, em que a indicação do sexo é feita por um determinante na forma de artigo, adjetivo ou pronome (a/o presidente, presidente honesto/honesta, meu/minha presidente); e "presidenta", como substantivo feminino, em que a indicação do sexo é feita pelo próprio gênero da palavra, ou seja, "presidenta" será sempre uma mulher.

Portanto, se Marina Silva ou Dilma Rousseff, as duas mulheres que disputam a eleição para presidente do Brasil, for eleita, podemos indiferentemente dizer "a presidente Dilma", "a presidenta Dilma", "a presidente Marina" ou "a presidenta Marina".

Esse é o lado gramatical da questão.

Passemos para o prático.

Em termos de uso, é visível a preferência neste momento por "a presidente".

E não poderia ser de outra forma, pois nunca houve uma mulher no principal cargo do País.

O mesmo ocorreu com outros femininos, que só ganharam força quando as funções passaram a ser exercidas por mulheres, a exemplo de "coronela", "consulesa", "doutora", "mestra", "ministra", "professora", "oficiala".

Vejamos o caso de "papisa".

É um feminino que existe na teoria gramatical, porém, como nunca houve uma mulher exercendo a função de papa, não se realiza na língua cotidiana.

Mas ele está ao nosso dispor e, se um dia houver uma mulher na liderança da Igreja Católica, certamente vamos chamá-la de "a papisa".

O feminino "presidenta" está mais ou menos nesse estado de latência, dependendo, para se popularizar, de maior presença das mulheres no cargo de presidente.

E a eleição de uma mulher para a Presidência da República pode representar um passo decisivo para isso.

Pois, na hipótese de o País passar a ser governado por uma mulher, não há dúvida de que "a presidenta do Brasil" será uma forma muito mais expressiva do que "a presidente do Brasil".

Publicado na coluna "Com todas as letras", Jornal do Commercio do Recife, em 14/7/2010.

23 comentários:

Anônimo disse...

Acho meio estranho qualquer "enta": presidenta, videnta etc. Afinal por que o "e" é entendido como masculino?

Felizmente os homens não se importam com os "istas". Já imaginou ir ao dentisto?

Laércio Lutibergue disse...

Amigo, o "e" não é entendido como masculino. Ele é neutro, por isso o/a vidente (não existe a videnta), o/a assistente (não existe a assistenta), o/a tendente (não existe a atendenta)...

O que possivelmente justifica "presidenta" e semelhantes é o desejo de reforçar, mediante um fato linguístico, a presença cada vez maior da mulher em funções antes exclusivas dos homens.

Anônimo disse...

Olá!

Sou arquiteta.... mas sempre ouvi dizer que 'arquiteta' não existe, só o masculino 'arquiteto'. É isso mesmo? Uma mulher deveria dizer que é 'um arquiteto'?

Abraço!
Claudia

Laércio Lutibergue disse...

Claudia, o feminino de "arquiteto" é "arquiteta".

Então, você é uma "arquiteta".

Saúde e paz!

Anônimo disse...

Ok. Então devemos ter EstudantA, DespachantA, MilitantA, FabricantA. Ora pois! O "E" não tem nada de "masculino" mas, sim, de comum de dois. Do contrário era melhor estabelecer PresidentO, EstudantO e por ái vai... Pobre língua nossa, cada vez mais maltratada, incluindo-os os açodados e inconseqüentes dicionaristas e outros "modernosos"... Logo logo termos "menas" dicionarizado como opção para "menos", já que muitos assim falam...

Laércio Lutibergue disse...

Prezado "Anônimo", sugiro que você estude mais o processo de formação de palavras na língua portuguesa.
Dessa forma, você descobrirá que nomes como "infante", "parente",
"pastor" e "português" começaram uniformes, valendo para ambos os gêneros, e só depois ganharam um feminino com morfema "a": "infanta", "parenta", "pastora" e "portuguesa".

Obrigado pelo comentário. E, por favor, da próxima vez, não assine como "Anônimo", identifique-se com seu verdadeiro nome.

As ideias têm mais valor quando se revelam os seus defensores.

Abraço

lio disse...

Acredito que o uso do "enta" é histórico e representa o poder que a mulher está ganhando dentro da sociedade.A língua é reflexo de uma sociedade,se uma mulher ganhar o "enta"ganhará mais força,se ela perder será esquecido.Língua é ideologia!

Michel D M disse...

Obrigado, Laércio, pelo post.

Todos os dicionários importantes registram.
As gramáticas registram.
O Volp registra.
Machado de Assis abona o uso: http://tinyurl.com/2vrr5ho
Não há polêmica. Há gente desinformada.

Mayara disse...

Agora entendi..
pois um professor no colégio me disse uma vez q "a presidenta" não existia, e fiquei com isso na cabeça, mas agora sei que posso usar as duas formas e é correto, a presidenta..

Laércio Lutibergue disse...

Michel:

Preconceito é sempre negativo.

Até mesmo o preconceito contra palavras.

Mas um dia as pessoas despertam e descobrem: era apenas preconceito.

Abraço.

Ana Géssica disse...

Olá, bom dia!
Encontrei seu blog buscando comentários sobre "a predidenta ou o predidente". Gostei do seu blog! E me ajudou bastante sobre minha dúvida. Se puder fazer uma visita no meu blog, ficarei agradecida. Obrigada!

Anônimo disse...

"Presidenta". Daqui a pouco jogam a língua portuguesa no lixo. Preconceito é querer transformar palavras neutras pra separar os sexos. No Brasil só existe uma via de preconceito: um cara chamar outro de negro é racismo mas devolver chamando de branco não é. Só machismo é feio, o feminismo é lindo. Temos que parar com isso urgentemente.

Anônimo disse...

Muito bom! Todos nós precisamos mesmo estudar mais a nossa língua para não cairmos em questões apenas preconceituosas e por falta de informação e/ou conhecimento.
Vicentina Vasques-Campo Grande-MS.

Mari Arantes disse...

Olá Laércio!!
Suas informações foram muito úteis!
Obrigada!

O que me deixa cada dia mais triste nesse país são as brigas por conta de nada... se há abertura na língua portuguesa, é importante modificar algumas coisas sim, ainda mais quando se trata do explícito reconhecimento ao papel feminino em nossa sociedade!

Triste é ver quanta gente ainda luta contra isso!!

Parabéns pelo blog!

Abraço

Mariana

Mari Arantes disse...

Olá Laércio!!
Suas informações foram muito úteis!
Obrigada!

O que me deixa cada dia mais triste nesse país são as brigas por conta de nada... se há abertura na língua portuguesa, é importante modificar algumas coisas sim, ainda mais quando se trata do explícito reconhecimento ao papel feminino em nossa sociedade!

Triste é ver quanta gente ainda luta contra isso!!

Parabéns pelo blog!

Abraço

Mariana

Easy English Bacacheri disse...

As línguas são vivas e assim sendo sofrem mudanças naturais ao longo do tempo. Essa mudança, por outro lado nos parece estar sendo imposta por quem já é presidente deste nosso amado país, e de quem se diz ser durona e mandona, ou será que estamos errados pensando assim? Por isso concordamos com os depoimentos anônimos e preferimos o uso da palavra presidente, assim como da estudante, gerente, comandante e assim por diente, e não presidenta, estudanta, gerenta e comandanta, não, comandanta ainda não, por favor. Concordamos também com o Laércio quando afirma que as ideias têm mais valor quando se revelam os seus defensores. No mais é tudo bla bla bla e ismos.

Ariane disse...

Tanto faz. As duas formas, linguisticamente, são corretas e plenamente aceitáveis.

A forma PRESIDENTA segue a tendência natural de criarmos a forma feminina com o uso da desinência “a”: menino e menina, árbitro e árbitra, brasileiro e brasileira, elefante e elefanta, pintor e pintora, espanhol e espanhola, português e portuguesa.

Na língua portuguesa, temos também a opção da forma comum aos dois gêneros: o artista e a artista, o jornalista e a jornalista, o atleta e a atleta, o jovem e a jovem, o estudante e a estudante, o gerente e a gerente, o tenente e a tenente.

Há palavras que aceitam as duas possibilidades: o chefe e A CHEFE ou o chefe e A CHEFA; o parente e A PARENTE ou o parente e A PARENTA; o presidente e A PRESIDENTE ou o presidente e A PRESIDENTA…

O problema deixa, portanto, de ser uma dúvida simplista de certo ou errado, e passa a ser uma questão de preferência ou de padronização. No Brasil, é fácil constatar a preferência pela forma comum aos dois gêneros: a parente, a chefe e a presidente. É bom lembrar que a acadêmica Nélida Piñon, quando eleita, sempre se apresentou como a primeira PRESIDENTE da Academia Brasileira de Letras. Patrícia Amorim, desde sua eleição, sempre foi tratada como a presidente do Flamengo.

É interessante observar também que formas como CHEFA e PARENTA ganharam no português do Brasil uma carga pejorativa.

É possível, porém, que a nossa Dilma prefira ser chamada de PRESIDENTA seguindo nossa vizinha Cristina, que gosta de chamada na Argentina de LA PRESIDENTA.

Hoje ou amanhã teremos uma resposta definitiva. Espero.

Anônimo disse...

O que deve prevalecer: Presidente, Presidenta ou Presidento

Ao analisar a questão posta, faz-se necessário, inicialmente, salientar que a forma PresidentA consta no volp - vocabulário da língua portuguesa, e não pode ser considerada errada.

Contudo, acreditamos que não seja a mais adequada, visto que nós não falamos PresidentO, assim, não precisamos falar PresidentA.

PresidentE é uma palavra neutra, quem afirma o gênero é o artigo que antecede a palavra. Assim, podemos falar Presidente Dilma e também Presidente Lula.
Se falássemos PresidentO Lula, haveria justificativa para falar PresidentA Dilma.

Pessoalmente, creio que chamar de PresidentA, faz soar até que ela seja uma figura autoritária, além de doer no ouvido.

Lembro ainda, que já existe várias mulheres que já foram presidentEs no Brasil (presidentE de associações, conselhos, turmas e câmaras judiciais) e no exterior (presidentE da Argentina e do Chile) e ninguém nunca as chamou de presidentAs.

Inclusive, a primeira mulher presidente de um poder no Brasil foi a Ministra Ellen Gracie, como PresidentE do Poder Judiciário do Brasil, o Supremo Tribunal Federal. Para se fazer política não é necessário estuprar o idioma.

Importante salientar, que não vejo ninguém questionando o fato dos homens serem chamados de poetAs, ou um movimento para que passemos a chamá-los de poetOs.

Por outro lado, o governo feminino deve tomar cuidado para buscar a igualdade entre os sexos e não a superação do homem pela mulher. Em alguns setores do serviço público existe um feminismo exacerbado, com profissionais masculinos sendo discriminados em razão do sexo e já existem repartições públicas cujos banheiros são reservados para o uso exclusivo dos servidores do sexo feminino, sem que haja um equivalente para o uso dos servidores masculinos.

Assim, acreditamos que o governo deve tomar cuidado com gestos que possam ser considerados agressivos pelos homens. Afinal, já somos os únicos obrigados a ir à guerra ou a servir um ano de nossas vidas à nação, além de termos que trabalhar 5 anos a mais para nos aposentar, apesar de termos uma espectativa de vida menor, entre outras desigualdades. Isso não é pouca coisa.

Dessa forma, acreditamos que a palavra presidentE, por ser neutra, atende plenamente e melhor aos dois sexo, indicando que o cago pode e deve ser ocupado tanto por homens como por mulheres.

Adoro nossa presidentE e acho que fará o melhor governo da história do Brasil, mas acredito que foi infeliz quando preferiu ver seu nome antecedido da palavra presidentA.

Laércio Lutibergue disse...

Prezado "Anônimo":

Vou responder a você com dois artigos.

O primeiro, de minha autoria: http://www.portuguesnarede.com/2010/11/presidente-dilma-ou-presidenta-dilma.html

O segundo, de uma sumidade em língua portuguesa, o professor da Unicamp Sírio Possenti:
http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI4874411-EI8425,00-Feminino.html

Observe que os dois artigos seguem caminhos difentes, mas terminam convergindo e validando sem restrição alguma o feminino "presidenta".

Abraço.

Laércio

Antonio Elizeu disse...

Paz e saúde para você, Láercio e a todos leitores!

Pois bem, saudável essa discussão partida do título da primeira mulher eleita para presidir essa linda e fascinante Nação.
Sugiro a todos a ler obras de Marcos Bagno (Preconceito Linguístico e A Língua de Eulália) e confirmarem que essa questão de inovar numa Língua Pátria tem espaço. Se não houver essas mudanças, a tendência é a língua desaparecer. Citando uma comparação do digníssimo catedrático citado, uma língua que não atualizada é como as pequenas poças d'água que ficam ao lado de um rio, quando acontece uma enchente nesse rio. E a língua que altera, é como esse rio caudaloso, que sempre está em movimento. Cecília Meireles trouxe o termo "a poeta" para nós e o mundo não acabou por conta disso.
Abraços, fiquem com Deus e aguardo retornos:
antonio.oliveira@sga.pucminas.br,jornalistaelizeu@gmail.com

Antonio Elizeu disse...

Ah, Láercio!
Fazendo esse adendo apenas para lhe parabenizar pelo excelente blog. Dinâmico e ativo e você age com naturalidde e rigor com "anônimos".
Como gosto de divulgar coisas boas, indiquei seu link para alguns dos meus contatos. Viva a Língua Pátria!
Super agradável deparar com um bom texto, uma boa escrita.
Parabéns, Paz, saúde e fique com Deus!
Antonio Elizeu de Oliveira, um belorizontino em Santa Luzia-MG

Laércio Lutibergue disse...

Prezado Antonio Elizeu:

Obrigado pela colaboração a este saudável e enriquecedor debate.

Não vou me estender, pois eu já disse tudo o que tinha de dizer sobre o assunto.

Forte abraço.

roberto disse...

Não ouso contestar Os especialistOs e Os dicionaristOs. Fugi da escola faz tempo mas guardei que o que definia o Gênero dos Comuns de Dois era o Artigo, não a Desinência. Acho que a onda do Polìticamente Correto está comprometendo e corrompendo as regras. Por este raciocínio serei obrigado a aceitar PianistO, ElefantO...

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