Julho 2010 - Português na Rede

A ficha, os fichas e a ortografia

Para quem escreve em jornais e revistas, nos últimos tempos é um tal de “ficha limpa” pra lá, de “ficha-suja” pra cá, às vezes com hífen, outras sem, ora com inicial maiúscula, ora com minúscula.

Enfim, um pluralismo gráfico que exige certa atenção de quem escreve.

Como esses termos são novos, ainda não existe uniformidade.

Por isso, num mesmo texto, é comum encontrar “os fichas sujas”, sem hífen, e “os fichas-sujas”, com hífen.

É normal, pois se trata de expressões ainda não reconhecidas oficialmente, ou seja, sem registro em obras de consulta, como os dicionários e o Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira de Letras.

No nosso caso, na condição de consultor linguístico, não podíamos ficar estático vendo a banda da bagunça ortográfica passar.

Assim, formulamos para o Jornal do Commercio a regra sobre o uso dessas expressões, conforme os preceitos da tradição gramatical.

A regra, que também serve para você, leitor, diz o seguinte:

1. Quando for substantivo e significar “pessoa que tem ficha limpa ou suja”, a expressão terá hífen e flexão no plural: “Os fichas-limpas do Congresso”; “Os fichas-sujas da política”; “Eleitor diz não aos fichas-sujas”.

2. Quando for adjetivo e tiver o mesmo significado acima referido, a expressão será invariável: “Eleitor diz não aos candidatos ficha-suja”; “Precisamos eleger os políticos ficha-limpa”.

3. Quando significar “ficha que reúne as informações sobre a conduta de uma pessoa”, será sem hífen e variará normalmente no plural: “Ele tem uma ficha limpa”; “A questão da ficha limpa é importante”; “Lei da Ficha Limpa”; “Os políticos planejam apagar suas fichas sujas”.

Observe que a lei é “da” ficha limpa (= “da ficha que reúne as informações sobre a conduta de uma pessoa”), e não “do” ficha limpa.

Publicado na coluna "Com todas as letras", Jornal do Commercio do Recife, em 21/7/2010.
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Regência: apelar

No sentido de pedir auxílio, valer-se de alguém ou de alguma coisa, o verbo “apelar” rege a preposição “para”: “Se preciso for, apelarei até para o presidente”; “O papa apelou para a fé dos católicos”; “O treinador apelou para a paciência da torcida".

“Apelar” tem uma segunda regência: na acepção de interpor recurso, é transitivo indireto com a preposição “de”: “O advogado apelou da sentença”.
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O BEM AMADO ou O BEM-AMADO?

As duas grafias são possíveis.

Quando é um substantivo ou adjetivo composto, com o sentido de pessoa ou coisa muito estimada, querida, escreve-se "bem-amado", com hífen: "Ele é o bem-amado da família"; "Chegou a bem-amada do chefe"; "Vê-se, pelo brilho, que é um carro bem-amado".

Quando não há formação de um nome composto, caso em que "bem" é um substantivo que significa "objeto material" e "amado" é o adjetivo que qualifica esse substantivo, escreve-se "bem amado", sem hífen: "Aquela fazenda é um bem amado por ele".

Também será sem hífen quando "bem" for advérbio modificando o adjetivo "amado": "Vocês são todos bem amados pela família".

Posto isso, constatamos que deveria ser com hífen o
"bem-amado" do filme que narra as peripécias de Odorico Paraguaçu.

No entanto, os responsáveis pela produção, ao que parece, registraram "O Bem Amado", sem hífen.
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Previsto para...

Afastam-se do padrão da norma culta frases como “As obras de construção do Parque Científico estão previstas para começarem em janeiro de 2011”.

Sucede que, em bom português, o adjetivo “previsto” rege uma circunstância de tempo, e não um verbo no infinitivo.

De modo prático, reformulando-se (para melhor) a frase que motivou esta dica, temos: “O início da construção do Parque Científico está previsto para janeiro de 2011”.
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A origem de "polvo"

Depois do vidente Paul, a palavra “polvo” ficou em evidência.

Do grego “polypous”, transformou-se em “polypus” no latim, que deu “pólipo” e “polvo” em português.

Etimologicamente significa “muitos pés” (“poli” = “muito” + “po” = “pé”).

É, portanto, uma designação bastante lógica tanto para o animal “polvo”, que tem muitos “pés” (oito precisamente), quanto para “pólipo”, formação tumoral que pode se assemelhar àquele molusco.
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A presidenta do Brasil!

Existe a possibilidade de, em breve, escutarmos a frase interjetiva que intitula este miniartigo.

Que poderia ser dita de outra forma: "A presidente do Brasil!"

Daria no mesmo, pois as gramáticas e os dicionários legitimam ambas as formas: "presidente", como um substantivo de dois gêneros, em que a indicação do sexo é feita por um determinante na forma de artigo, adjetivo ou pronome (a/o presidente, presidente honesto/honesta, meu/minha presidente); e "presidenta", como substantivo feminino, em que a indicação do sexo é feita pelo próprio gênero da palavra, ou seja, "presidenta" será sempre uma mulher.

Portanto, se Marina Silva ou Dilma Rousseff, as duas mulheres que disputam a eleição para presidente do Brasil, for eleita, podemos indiferentemente dizer "a presidente Dilma", "a presidenta Dilma", "a presidente Marina" ou "a presidenta Marina".

Esse é o lado gramatical da questão.

Passemos para o prático.

Em termos de uso, é visível a preferência neste momento por "a presidente".

E não poderia ser de outra forma, pois nunca houve uma mulher no principal cargo do País.

O mesmo ocorreu com outros femininos, que só ganharam força quando as funções passaram a ser exercidas por mulheres, a exemplo de "coronela", "consulesa", "doutora", "mestra", "ministra", "professora", "oficiala".

Vejamos o caso de "papisa".

É um feminino que existe na teoria gramatical, porém, como nunca houve uma mulher exercendo a função de papa, não se realiza na língua cotidiana.

Mas ele está ao nosso dispor e, se um dia houver uma mulher na liderança da Igreja Católica, certamente vamos chamá-la de "a papisa".

O feminino "presidenta" está mais ou menos nesse estado de latência, dependendo, para se popularizar, de maior presença das mulheres no cargo de presidente.

E a eleição de uma mulher para a Presidência da República pode representar um passo decisivo para isso.

Pois, na hipótese de o País passar a ser governado por uma mulher, não há dúvida de que "a presidenta do Brasil" será uma forma muito mais expressiva do que "a presidente do Brasil".

Publicado na coluna "Com todas as letras", Jornal do Commercio do Recife, em 14/7/2010.
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Como se escreve “portfolio” em português?

Há quatro opções: porta-fólio, portefólio, portfólio e portifólio.

Pela lógica de nosso sistema gráfico, a melhor é “porta-fólio”, que segue o paradigma das palavras formadas por verbo + substantivo.

Ou seja, o verbo que inicia o vocábulo composto é uma forma de terceira pessoa do presente do indicativo, como em “guarda-chuva”, “porta-luvas” e “toca-discos”.

A grafia “portefólio”, apesar de encontrada em dicionários de Portugal, não é boa porque foge do modelo citado acima, isto é, a forma verbal “porte” não é terceira pessoa do presente do indicativo.

O aportuguesamento “portfólio” tem como base o inglês “portfolio”. Ele consta nos dicionários e tem forte uso.

Sofre, porém, a repulsa de alguns pelo motivo de o encontro consonantal “tf” ser incomum na língua portuguesa.

“Portifólio” é um aportuguesamento fonético, em razão da pronúncia “ti”.

Embora seja muito comum, tem contra ele o fato de ainda não estar dicionarizado.
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HOLANDA E HOLANDÊS x PAÍSES BAIXOS E NEERLANDÊS

Nos países de língua portuguesa, o nome “Holanda” é mais empregado que “Países Baixos”.

Mas, a rigor, quem diz/escreve “Holanda” contribui para disseminar uma imprecisão.

Um quarto do território desse país está abaixo do nível do mar.

Por isso em inglês seu nome é “Netherlands” (nether = baixo + lands = terras).

Em português, a melhor designação é “Países Baixos”, visto que “Holanda” é na realidade o nome de duas províncias, Holanda do Norte e Holanda do Sul, que formam com outras dez regiões administrativas os Países Baixos.

Quem nasce nos Países Baixos é “neerlandês”.

“Holandês” se aplica, de modo mais preciso, aos nascidos nas Holandas do Norte e do Sul.
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A IMPRENSA ARGENTINA TRIPUDIOU DA ou SOBRE A SELEÇÃO BRASILEIRA?

Com o sentido de “exultar por uma vitória, desprezando o adversário”, o verbo “tripudiar” rege a preposição “sobre”.

Logo, a forma correta é “A imprensa argentina tripudiou sobre a seleção brasileira”.

A regência com a preposição “de” é bem empregada quando “tripudiar” significa “dançar saltando com os pés”: “Ela tripudiou de alegria”.
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A língua do futebol

Foram os ingleses que trouxeram o futebol para o Brasil.

Por isso, até metade do século passado predominavam expressões inglesas no vocabulário do futebol brasileiro.

Torcedores e cronistas esportivos falavam e escreviam palavras como “football”, “goal”, “penalty”, “score”, “shoot”, “team”, “back”, “goalkeeper”, “referee”, “corner”, “hands”.

Com a popularização do esporte bretão, nacionalistas se insurgiram contra esse abuso de anglicismos.

E, assim, entraram em campo os aportuguesamentos futebol, gol, pênalti, escore, chute, time, beque, goleiro, juiz/árbitro, escanteio e toque, substituindo as formas estrangeiras.

O inglês, porém, não foi a única fonte das palavras futebolísticas.

Por exemplo, do francês “placard”, veio “placar”; “zagueiro”, que substituiu o aportuguesamento de origem inglesa “beque”, veio do espanhol “zaguero”; e o espanhol sul-americano importou do quíchua, língua nativa do Peru, “cancha” e a exportou para nós, que a assimilamos sem nenhuma modificação.

Mas nem todas as palavras do futebol vieram de fora.

“Torcedor”, por exemplo, é exclusividade brasileira. No português lusitano, seu correspondente é adepto; em inglês é supporter (o que dá “suporte” ao clube); em italiano, tifoso (o que é “doente” pelo clube); em espanhol, hincha (o que se “infla” pelo clube).

O uso da palavra “torcedor” com o sentido de simpatizante de clube esportivo vem de uma época em que as pessoas acompanhavam as partidas educadamente e controlavam seus arroubos emotivos torcendo lenços.

Infelizmente os atuais torcedores perderam a polidez e, em vez de lenços, torcem o pescoço dos adversários.

Publicado na coluna "Com todas as letras", Jornal do Commercio do Recife, em 30/6/2010.
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