A concordância na voz passiva


A voz passiva sintética é uma ilustre desconhecida para a maioria.


É por isso que predominam frases equivocadas como “Vende-se carros”, “Aluga-se salas” e “Contrata-se costureiras”.


A gramática nos ensina que existem três vozes – ativa, o sujeito pratica a ação: “Ele vende carros”; passiva, o sujeito sofre a ação: “Vendem-se carros” ou “Carros são vendidos”; e reflexiva, o sujeito pratica e sofre a ação: “Ele se cortou”.


O grande problema é que o brasileiro não entende que nas orações o sujeito pode ser passivo e  vê o substantivo que exerce a função de sujeito como objeto direto, por isso diz “Vende-se carros”.


É isso que leva alguns linguistas a dizer que no português do Brasil não existe a voz passiva sintética e que o substantivo dessa estrutura é realmente um objeto direto.


Será mesmo? Vamos pronominalizar o termo “carros” da construção popular “Vende-se carros”.


Que pronome usaremos? Se “carros” é objeto direto, o pronome que substitui objeto direto é o oblíquo, neste caso,“os”.


Fica, dessa forma, “Vende-se os”.


Ruim, não é?


Vamos tentar com outro pronome: “Vende-se eles”.


Agora, sim, ficou bom.


Sabe por quê? Porque “ele” é pronome pessoal que exerce a função de sujeito.


Isso prova que “carros” é sim o sujeito da oração, tanto que foi substituído por um pronome que pode exercer a função de sujeito.


Não há dúvida, portanto, que existe a voz passiva sintética.


Se o brasileiro não sabe identificá-la, são outros quinhentos.


E pode haver várias causas.


Uma delas: a qualidade do nosso ensino.


Para identificar a voz passiva sintética, o primeiro passo é entender que existem orações em que o sujeito sofre a ação expressa pelo verbo, ou seja, é passivo.


O segundo é saber que todas as orações na voz passiva sintética têm esta estrutura: verbo transitivo direto (que pede complemento sem preposição) acompanhado da partícula apassivadora “se” e de substantivo, que é o sujeito passivo e leva o verbo a concordar com ele.


Veja: “Alugam-se casas”.


Estrutura da oração: verbo transitivo direto + se + substantivo/sujeito passivo.


Há vezes em que o “se” vem antes do verbo e a estrutura muda um pouquinho: “Em Bruxelas dificilmente se veem mendigos”.


Estrutura da oração: se + verbo transitivo direto + substantivo/sujeito.


Importante também é saber que todas essas orações podem ser passadas para a voz passiva analítica, que tem a seguinte estrutura: substantivo/ sujeito passivo + verbo ser + particípio.


Ou seja, “Alugam-se casas” se transforma em “Casas são alugadas” e “Em Bruxelas dificilmente se veem mendigos” vira “Em Bruxelas dificilmente mendigos são vistos”.

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