O leitor atento do Jornal do Commercio já deve ter percebido que nosso jornal aportuguesou “campus” (plural “os campi”) e escreve “câmpus” (plural “os câmpus”).
Alguns leitores, porém, não aceitam esse aportuguesamento.
Um deles é Ana Cristina Cavalcante, que justificou sua oposição à grafia “câmpus” dizendo que “nenhum dicionário registra essa palavra”.
É verdade, Ana.
O aportuguesamento “câmpus” não consta nos dicionários.
Mas Aurélio, Houaiss e o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp) também não registram “arte-educador”, “empardecimento”, “decateto”, “pitaco”, “seminovo” e muitas outras palavras.
Nem por isso vamos dizer que essas palavras não existem.
Afinal, é impossível um dicionário registrar todas as palavras de uma língua.
Papel e impressão custam caro.
O Volp da Academia Brasileira de Letras é o maior acervo de palavras da língua em livro, com cerca de 380.000, mas nem assim esgota tudo.
E olhe que, apesar do volume que tem, ele não traz uma só definição.
Mostra apenas a grafia das palavras (da maioria, não de todas, frisamos).
Como seria, quanto custaria o Volp, se cada palavra tivesse todas as definições, exemplos, informações léxicas e gramaticais?
Mesmo um Grand Robert (em francês), com seis volumes, não traz tudo que se usa.
Talvez o Oxford (em inglês), em vinte volumes, sim. Mas quantos podem adquiri-lo?
Quando optamos pela grafia “câmpus” foi por um motivo muito forte: coerência.
O latim era uma língua de casos, as palavras mudavam de terminação de acordo com a função sintática.
Então, para manter a coerência, teríamos campus/campi quando o termo fosse sujeito; campum/campos quando fosse objeto direto; campo/campis quando fosse objeto indireto e adjunto adverbial; e campi/camporum quando fosse adjunto adnominal.
Isso sim seria latim, e não a tradição sem base crítica de “campus”.
Por tudo isso, não é sensato deter a evolução natural da língua.
Grafemos, pois, “câmpus”, com acento, assim como bônus, cáctus, fícus, húmus, lócus, lúpus, ônibus, pínus, vírus e tantas outras palavras latinas aportuguesadas.
Compre o
2 comentários:
Professor, muito boa, didática e polida sua explicação. Gostei, sinceramente.
O que às vezes não consigo entender é que as pessoas, em sua grande maioria, imaginam que os dicionários é que ditam a língua de um povo, quando, na realidade as palavras só vão para os dicionários após sua criação pelos do povo, não?
Sendo mais objetivo: as palavras nascem do povo e aí vão para os dicionários; nunca o contrário.
abs
Exatamente, José Roberto: as palavras nascem do povo e somente depois vão para os dicionários.
Obrigado pelo comentário.
Abraço.
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