Por que não “câmpus”? - Português na Rede

Por que não “câmpus”?

Sou um defensor de que, no lugar do latim “campus” (plural “os campi”), se escreva “câmpus” (plural “os câmpus”).

Algumas pessoas, porém, não aceitam esse aportuguesamento.

Elas justificam sua oposição à grafia “câmpus” dizendo que “nenhum dicionário registra essa palavra”.

É verdade, o aportuguesamento “câmpus” não consta nos dicionários.

Mas Aurélio, Houaiss e o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp) também não registram “arte-educador”, “empardecimento”, “decateto”, “pitaco”, “seminovo” e muitas outras palavras.

Nem por isso vamos dizer que essas palavras não existem.

Afinal, é impossível um dicionário registrar todas as palavras de uma língua.

Papel e impressão custam caro.

O Volp da Academia Brasileira de Letras é o maior acervo de palavras da língua em livro, com cerca de 380.000, mas nem assim esgota tudo.

E olhe que, apesar do volume que tem, ele não traz uma só definição.

Mostra apenas a grafia das palavras (da maioria, não de todas, frisamos).

Como seria, quanto custaria o Volp, se cada palavra tivesse todas as definições, exemplos, informações léxicas e gramaticais?

Mesmo um Grand Robert (em francês), com seis volumes, não traz tudo que se usa.

Talvez o Oxford (em inglês), em vinte volumes, sim.

Mas quantos podem adquiri-lo?

Nossa preferência pela grafia “câmpus” é por um motivo muito forte: coerência.

O latim era uma língua de casos, as palavras mudavam de terminação de acordo com a função sintática.

Então, para manter a coerência, teríamos campus/campi quando o termo fosse sujeito; campum/campos quando fosse objeto direto; campo/campis quando fosse objeto indireto e adjunto adverbial; e campi/camporum quando fosse adjunto adnominal.

Isso sim seria latim, e não a tradição sem base crítica de “campus”.

Por tudo isso, não é sensato deter a evolução natural da língua.

Grafemos, pois, “câmpus”, com acento, assim como bônus, cáctus, fícus, húmus, lócus, lúpus, ônibus, pínus, vírus e tantas outras palavras latinas aportuguesadas.

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2 comentários:

JOSÉ ROBERTO BALESTRA disse...

Professor, muito boa, didática e polida sua explicação. Gostei, sinceramente.

O que às vezes não consigo entender é que as pessoas, em sua grande maioria, imaginam que os dicionários é que ditam a língua de um povo, quando, na realidade as palavras só vão para os dicionários após sua criação pelos do povo, não?

Sendo mais objetivo: as palavras nascem do povo e aí vão para os dicionários; nunca o contrário.

abs

Laércio Lutibergue disse...

Exatamente, José Roberto: as palavras nascem do povo e somente depois vão para os dicionários.

Obrigado pelo comentário.

Abraço.

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