O meio-termo

Na edição do domingo 25 de abril, o Caderno C trouxe como matéria de capa Além do “certo” e do “errado”, excelente trabalho da professora-jornalista Amanda Tavares.

A matéria aproveitava a realização de Menas: o certo do errado, o errado do certo, exposição em cartaz no Museu da Língua Portuguesa, para tratar de questões como variedades da língua e preconceito linguístico.

Uma entrevista com o professor Marcos Bagno tornou ainda mais completa a reportagem.

Nessa entrevista, o ilustre linguista ratificou sua conhecida visão crítica em relação ao ensino da língua portuguesa na escola.

E foi perfeito quando disse que os professores precisam ser mais bem letrados e que a ênfase na sala de aula precisa ser na prática da oralidade e da escrita.

Em determinado trecho, Bagno fala de umas tais "questões cabalísticas", isto é, de assuntos que devem deixar de ser abordados pelos professores.

Entre as “questões cabalísticas” citadas pelo professor, está a preposição.

Neste ponto da entrevista o professor Bagno dá a entender que o aluno não precisa saber o que é um substantivo, um adjetivo, um verbo, enfim, que o aluno não precisa saber qual a função de cada palavrinha que ele usa na comunicação oral e escrita.

Saber, por exemplo, que em “jogadores brasileiros” o segundo termo é um adjetivo e, por isso, concorda com o substantivo “jogadores”.

Imagino, pelo que defende Bagno, que esse ensinamento é inútil porque “jogadores brasileiro” é uma forma perfeitamente aceitável entre indivíduos alfabetizados.

E esta é a razão da minha discordância com o pensamento do eminente linguista.

Está certo que existe muita inutilidade sendo ensinada na escola, mas nem por isso vamos sacrificar saberes que são importantes para a comunicação.

Eu, por exemplo, fui até o nível médio ensinado sob o enfoque da gramática do certo e do errado, como dizem os linguistas.

Com muita morfologia, com muita sintaxe. E ainda bem! Afinal, é graças a esse ensino que hoje consigo expressar minhas ideias em textos como este.

A gramática tradicional não é a culpada pelo fracasso do ensino da língua portuguesa.

Os culpados são outros: professores despreparados, desmotivados, malpagos, por exemplo.

E é possível muito bem ensinar a gramática e ser crítico em relação a seu conteúdo.

O que não podemos é chegar ao extremo de decretar a morte dela.

Afinal, todo radicalismo é nocivo.

Inclusive o linguístico.

Publicado na coluna "Com todas as letras", Jornal do Commercio do Recife, em 5/5/2010.

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