A regência de “apologia”

Leia com atenção, leitor amigo, a seguinte frase: "Jovem detido por apologia ao crime".

Vê algo de anormal nela?

Se disse que não, você está entre os que acham que fazemos apologia "a" alguma coisa.

No entanto, a regência culta de "apologia" é outra.

Segundo dicionários como Houaiss e o de regência nominal de Celso Luft, fazemos apologia "de" alguma coisa, ou seja, o substantivo "apologia" rege a preposição "de".

Essa regência é corroborada pelo Código Penal Brasileiro, que no artigo 287 diz que é crime "fazer apologia "de" fato criminoso ou "de" autor de crime".

E por autores como Eça de Queirós, que, em Cartas familiares e bilhetes de Paris, informa que "Madame Sara Bernhardt publicou recentemente no Figaro uma concisa apologia ‘da’ sua vida e ‘do’ seu gênio".

A regência com a preposição "de" tem, afora esses motivos, um que precede todos os outros: "apologia" vem do grego "apología,as", "defesa, justificação".

Entendeu aonde queremos chegar, leitor? Apologia é defesa e fazemos defesa "de" algo.

Com tantos motivos para ser "apologia de", o que explica "apologia a"?

A contaminação pelo substantivo "elogio", que tem a regência "elogio a".

Esse tipo de contaminação é comum na língua, como demonstram os verbos "extorquir" e "sobressair".

Mas este assunto, por falta de espaço, ficará para uma próxima coluna.

Publicado na coluna "Com todas as letras", Jornal do Commercio do Recife, em 9/6/2010.

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