Maio 2010 - Português na Rede

Clero e clérigo

Na Grécia antiga, havia um recipiente côncavo onde se punham pedrinhas ou pedacinhos de madeira para realizar sorteios.

O nome desse recipiente era "klêros".

Assim como os gregos, os primeiros cristãos usavam o "klêros" para escolher, conforme a vontade divina, aqueles que ficariam responsáveis por determinados trabalhos da Igreja.

Os escolhidos por esse sorteio eram os "clérigos".
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As sêmis do JC

Não, amigo leitor, não vamos falar das semifinais do torneio de futebol do Jornal do Commercio, como dá a entender o título deste comentário.

Nosso assunto é outro.

É a palavra "sêmi(s)", muito usada nas páginas esportivas do JC.

Sabemos, por alguns e-mails recebidos, que tal palavra está chamando a atenção de muitos leitores do jornal.

Não sem razão, pois essa redução com acento e plural do substantivo "semifinal" é muito pouco usada, diríamos mesmo que é exclusivamente usada no JC.

O que é muito ruim, pois mostra o desconhecimento da maioria em relação à nossa gramática.

Porque, se houvesse conhecimento, os que estranham "sêmi(s)" saberiam que os prefixos, quando substantivados, seguem as regras de flexão e acentuação da língua portuguesa, motivo pelo qual o JC escreve "as mínis", "as múltis", "as sêmis"...

Saberiam também que muita diferença há entre a morfologia de "semifinal" e a de "as sêmis": no primeiro caso, o prefixo "semi-" aparece agregado ao substantivo "final", formando com este uma palavra; no segundo, o artigo "a" substantiva o prefixo, transformando-o numa palavra paroxítona terminada em "i(s)", como "júri", e por isso acentuada.

É bom, portanto, ir se acostumando com a forma "as sêmis", pois ela está certíssima. Se o JC, por enquanto, é o único veículo que a usa, não é uma falha dele.

A falha, ou a desinformação, ou a insegurança, ou o preconceito, ou seja lá o que for, é dos outros.

Publicado na coluna "Com todas as letras", Jornal do Commercio do Recife, em 21/4/2010
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APOLOGIA AO ou DO CRIME?

Segundo o dicionário Houaiss e o de regência nominal de Celso Luft, o substantivo “apologia” rege a preposição “de”.

Logo, por esses dicionários, a construção ajustada à norma culta é "apologia do crime".
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Crase antes de nome de lugar

Líamos, em pleno gozo do ócio de domingo,  uma reportagem sobre a política internacional do governo do Brasil.


Estava tudo bem com o texto, até que nos deparamos com a seguinte frase: “Na viagem à Cuba, o presidente Lula encontrou protestos...”


O grifo no “a”, leitor, é para destacar a ocorrência de um erro muito comum: a crase antes de nome de lugar que rejeita artigo.


Observe que dizemos “Estive em Cuba”, e não “Estive na Cuba”.


Logo, o nome “Cuba” rejeita a anteposição do artigo feminino “a”.


Por isso, não há crase em “Na viagem a Cuba, o presidente Lula encontrou protestos...”


O macete para saber quando ocorre crase antes de nome de lugar é simples.


Basta usar o verbo “voltar”.


Se ficar “voltar da”, há crase.


Se o resultado for outro, ficar “voltar de”, não há.


Veja: “Eu voltei de Brasília”; logo, com "Brasília", não há crase.


Caso diferente é o do nome “Bahia”, pois “Eu voltei da Bahia”.


Importante ressaltar que haverá crase se o topônimo (=nome de lugar) estiver determinado: “Fomos à Brasília dos grandes escândalos de corrupção”.


A fórmula voltar de/da confirma a crase: “Voltei da Brasília dos grandes escândalos de corrupção”.
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Concordância: "é que"

O verbo "ser" não varia quando faz parte da expressão de realce "é que": "Os repórteres é que estão certos".

Observe que, por ser um termo de realce, ou seja, um enfeite, essa expressão pode sair da frase: "Os repórteres estão certos".

Se, porém, o sujeito ficar entre “ser” e “que”, o verbo irá para o plural: “São os repórteres que estão certos”.

Destaque-se ainda que, quando não puder sair da frase, o "é que" não será expressão de realce e, assim sendo, o verbo  normalmente se flexionará.

Este é o caso de "As estimativas são que mil empresas estão irregulares no Estado".
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O meio-termo

Na edição do domingo 25 de abril, o Caderno C trouxe como matéria de capa Além do "certo" e do "errado", excelente trabalho da professora-jornalista Amanda Tavares.

A matéria aproveitava a realização de Menas: o certo do errado, o errado do certo, exposição em cartaz no Museu da Língua Portuguesa, para tratar de questões como variedades da língua e preconceito linguístico.

Uma entrevista com o professor Marcos Bagno tornou ainda mais completa a reportagem.

Nessa entrevista, o ilustre linguista ratificou sua conhecida visão crítica em relação ao ensino da língua portuguesa na escola.

E foi perfeito quando disse que os professores precisam ser mais bem letrados e que a ênfase na sala de aula precisa ser na prática da oralidade e da escrita.

Em determinado trecho, Bagno fala de umas tais "questões cabalísticas", isto é, de assuntos que devem deixar de ser abordados pelos professores.

Entre as “questões cabalísticas” citadas pelo professor, está a preposição.

Neste ponto da entrevista o professor Bagno dá a entender que o aluno não precisa saber o que é um substantivo, um adjetivo, um verbo, enfim, que o aluno não precisa saber qual a função de cada palavrinha que ele usa na comunicação oral e escrita.

Saber, por exemplo, que em “jogadores brasileiros” o segundo termo é um adjetivo e, por isso, concorda com o substantivo “jogadores”.

Imagino, pelo que defende Bagno, que esse ensinamento é inútil porque “jogadores brasileiro” é uma forma perfeitamente aceitável entre indivíduos alfabetizados.

E esta é a razão da minha discordância com o pensamento do eminente linguista.

Está certo que existe muita inutilidade sendo ensinada na escola, mas nem por isso vamos sacrificar saberes que são importantes para a comunicação.

Eu, por exemplo, fui até o nível médio ensinado sob o enfoque da gramática do certo e do errado, como dizem os linguistas.

Com muita morfologia, com muita sintaxe. E ainda bem! Afinal, é graças a esse ensino que hoje consigo expressar minhas ideias em textos como este.

A gramática tradicional não é a culpada pelo fracasso do ensino da língua portuguesa.

Os culpados são outros: professores despreparados, desmotivados, malpagos, por exemplo.

E é possível muito bem ensinar a gramática e ser crítico em relação a seu conteúdo.

O que não podemos é chegar ao extremo de decretar a morte dela.

Afinal, todo radicalismo é nocivo.

Inclusive o linguístico.

Publicado na coluna "Com todas as letras", Jornal do Commercio do Recife, em 5/5/2010.
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Parabéns

O que hoje é cumprimento surgiu como advertência.

A pessoa completava mais um ano de vida e era advertida: para (fazer o) bem.

Ganhava um presente, um prêmio, e lá vinha a advertência: para (fazer o) bem.

As partes se uniram e formaram "parabém", palavra que hoje somente se emprega no plural: "Governador recebe os parabéns do presidente "; "Meus parabéns por seu aniversário"; "Os parabéns de hoje vão para vocês".
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A pronúncia de “muito”

Segundo o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, a vogal “u” dessa palavra tem som aberto, como o “u” de “fui”.

A pronúncia oficial é, portanto, ‘múito’. (O acento não existe; é só para indicar a pronúncia.)

A maioria das pessoas, porém, pronuncia a palavra com a nasalização do ditongo "ui", "muinto". (O "n" não existe; é só para indicar a pronúncia.)

Esta última e mais popular pronúncia, mesmo não sendo a oficial, tem a defesa de mestres como Evanildo Bechara e Celso Cunha.
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