Agosto 2010 - Português na Rede

BARZINHOS ou BAREZINHOS?

O plural de palavras com o diminutivo "-zinho" é feito da seguinte forma: plural da palavra primitiva (menos "s") + sufixo (zinho ou zinha) + desinência "s".

De modo prático: "pão" - plural: "pães" - menos "s": "pãe" - mais sufixo "zinho": "pãezinho" - mais desinência "s": "pãezinhos".

Outros plurais obtidos pelo mesmo esquema: balõezinhos, papeizinhos, animaizinhos.

No caso de a palavra terminar em "r", a história é um pouco diferente porque hoje se aceitam dois plurais: barezinhos ou barzinhos, florezinhas ou florzinhas, mulherezinhas ou mulherzinhas.


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Bastidor e bastidores

Tenho observado, principalmente nos textos de imprensa, que é cada vez mais comum o uso de “bastidor” por “bastidores”.

O problema é que, considerando-se o preceituário da língua-padrão, esse uso está equivocado.

“Bastidor” e “bastidores” são vocábulos com significados distintos.

“Bastidor” é um aparelho para bordar, um caixilho geralmente de madeira que segura o tecido a ser bordado.

É também, nos teatros e nas casas de espetáculo, armação móvel de cenário, feita de madeira e pano, que se monta nas partes laterais do palco para delimitar o espaço cênico.

A palavra “bastidores” é um pluralia tantum, um termo que só se usa no plural, como “férias”, “óculos” e “parabéns”.

Nomeia os corredores que contornam a cena, as coxias.

Figurativamente designa o ambiente restrito, fora do alcance da maioria das pessoas, no qual, conforme o dicionário Houaiss, “resoluções são planejadas e ações são empreendidas”.

É quando empregam este último significado que as pessoas se atrapalham.

Dizem, por exemplo, “o bastidor da Copa do Mundo”, “o bastidor das eleições”, em vez de dizerem o que é abonado pelos dicionários: “os bastidores da Copa do Mundo”, “os bastidores das eleições”.


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Desafio/ enriqueça seu vocabulário

“Magicatura” é:

a) Uma mágica muito benfeita.

b) Uma fraude, uma enganação.

c) Uma dança ritualista da Grécia antiga.

Resposta do desafio

A palavra “magicatura” significa fraude, enganação. Um exemplo com ela: “A democracia brasileira é uma magicatura”.


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A palavra "véspera"

Veio do latim “vespera”, ‘cair da tarde, anoitecer’.

É da mesma família de “vespertino” e de outras palavras formadas do latim “vesper”, ‘tarde’.

Afastou-se, porém, do significado original e hoje é mais empregada com o significado de dia anterior a alguma data, a algum evento.


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ABAIXO-ASSINADO ou ABAIXO ASSINADO?

Quando é substantivo, designando documento, requerimento, petição, é "abaixo-assinado", com hífen: "Os músicos fizeram um abaixo-assinado".

Quando indica o(s) que assina(m) um abaixo-assinado, é sem hífen: "Filomeno Cardoso, abaixo assinado, foi quem promoveu este abaixo-assinado"; "Nós, abaixo assinados, defendemos a aprovação do projeto de lei que regulamenta a acupuntura em todo o Brasil".


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INCONTESTE x INCONTESTÁVEL

O uso de “inconteste” por “incontestável” vai ficando cada vez mais comum.

No entanto, esse uso ainda não foi abonado por manuais importantes, como o Aurélio.

Segundo o dicionário mais popular do Brasil, “inconteste” é o que é discordante, divergente: depoimentos incontestes, testemunhas incontestes, opiniões incontestes.

E “incontestável” é o mesmo que irrefutável, indiscutível: campeão incontestável, sucesso incontestável, líder incontestável.


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TÃO POUCO ou TAMPOUCO?

"Tão pouco" equivale a “muito pouco”: “O partido não imaginava a liderança nas pesquisas em tão pouco tempo”; “O trabalhador brasileiro ganha tão pouco que mal dá para viver”.

"Tampouco" significa “nem”, “também não”: “Não bebe nem fuma, tampouco gosta de futebol”; “Nunca confiei em capitalistas, tampouco em socialistas”.

Observe que "nem" e "tampouco" são sinônimos.

Por isso escrever “nem tampouco” é redundante.


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O bom filho "à" ou "a" casa torna?

A crase é a fusão do "a" preposição com o "a" artigo.

Para ocorrer crase, portanto, é condição essencial haver dois "a".

Posto isso, a palavra “casa” no sentido de lar, lugar onde se mora, é usada sem artigo: "Estive em casa"; "Passei em casa"; “Fica perto de casa”, “Eu retornei para casa”.

Razão pela qual não há crase em “O bom filho a casa torna”.

Atenção! Estando "casa" acompanhada de um especificador, muda tudo, passa a ocorrer crase: "O bom filho à casa dos pais torna".

O motivo: "casa", quando especificada, aceita a anteposição do artigo: "Estive na casa dos meus pais"; "Passei na casa dos meus tios"; “Mora perto da casa da minha irmã”.
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A pronúncia de “subsídio” e de “obséquio”

Subsídio

O "s" dessa palavra soa como "ss", e não como "z", do mesmo modo que "subsaariano", "subsecretário",
“subserviente, "subsistência", "subsolo".

Para ter som de “z”, o “s” precisa ficar entre duas vogais.

Não é o caso.

Conforme alguns etimologistas, "subsídio" designava uma corporação do exército romano, "sub sedio".

Formada por soldados estrangeiros, essa corporação somente atuava quando havia necessidade de socorro, de auxílio, o que explica o sentido moderno de "subsídio".

Obséquio

Das palavras com o encontro “-bs-”, o “s” tem som de “z” somente em “obséquio” e derivadas (obsequiar, obsequioso, obsequiosidade).

É por um motivo etimológico.

“Obséquio” é da família de “exéquias”.

Elas não são sinônimas, a primeira significa “favor”, a segunda, “cerimônias fúnebres”.

A relação de parentesco, porém,  fica clara em “obséquias”, sinônimo de “exéquias”, e no latim: “obsequiae”, plural de “obsequium” (serviço), do verbo “obsequi” (ceder a, obedecer), com a base “sequi” (seguir), também presente em “exsequiae”.
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A regência de “apologia”

Leia com atenção, leitor amigo, a seguinte frase: "Jovem detido por apologia ao crime".

Vê algo de anormal nela?

Se disse que não, você está entre os que acham que fazemos apologia "a" alguma coisa.

No entanto, a regência culta de "apologia" é outra.

Segundo dicionários como Houaiss e o de regência nominal de Celso Luft, fazemos apologia "de" alguma coisa, ou seja, o substantivo "apologia" rege a preposição "de".

Essa regência é corroborada pelo Código Penal Brasileiro, que no artigo 287 diz que é crime "fazer apologia "de" fato criminoso ou "de" autor de crime".

E por autores como Eça de Queirós, que, em Cartas familiares e bilhetes de Paris, informa que "Madame Sara Bernhardt publicou recentemente no Figaro uma concisa apologia ‘da’ sua vida e ‘do’ seu gênio".

A regência com a preposição "de" tem, afora esses motivos, um que precede todos os outros: "apologia" vem do grego "apología,as", "defesa, justificação".

Entendeu aonde queremos chegar, leitor? Apologia é defesa e fazemos defesa "de" algo.

Com tantos motivos para ser "apologia de", o que explica "apologia a"?

A contaminação pelo substantivo "elogio", que tem a regência "elogio a".

Esse tipo de contaminação é comum na língua, como demonstram os verbos "extorquir" e "sobressair".

Mas este assunto, por falta de espaço, ficará para uma próxima coluna.

Publicado na coluna "Com todas as letras", Jornal do Commercio do Recife, em 9/6/2010.
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MUSSARELA ou MUÇARELA?

O duplo "z" de palavras italianas vira, em português, "ç":

carrozza - carroça

piazza - praça

razza - raça

Na Itália, escreve-se "mozzarella", com dois "z".

É por isso que os principais dicionários (Aurélio e Houaiss) e o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp) prescrevem a grafia "muçarela", com "ç".

Portanto, por incrível que pareça, a forma "errada", segundo as fontes citadas, é justamente a que quase todo mundo usa: “mussarela”.

Como explicar isso?

Não é difícil: um belo dia, alguém que desconhecia a regra de que o duplo "z" italiano vira "ç" em português escreveu "mussarela".

Outros que também desconheciam a regra o acompanharam.

E assim foi popularizada a grafia com dois "ss".

Hoje, ai daquele que escreve "muçarela"!

Certamente, para a grande maioria, o errado é ele, apesar de a ortografia oficial dizer o contrário.

Diante da situação, o que fazer?

Ignorar a regra e grafar "mussarela" conforme a maioria?

Ou acatar a prescrição da norma e escrever "muçarela"?

Eu vou dizer o que faço: escrevo "muçarela", mas não corrijo quem escreve "mussarela", pois sei que este é mais um dos tantos erros que o uso consagrou.

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RE-ELEITO ou REELEITO?

O prefixo “re-” liga-se sem hífen ao termo seguinte, dobrando-se o “r” e o “s”: reaver, reconfortar, rescrever (ou reescrever), reedição, reeleito, reeleger, reestruturar, reenviar, repassar, revirar, rerratificar, ressignificado.
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DIA-A-DIA ou DIA A DIA?


Pela nova regra, não existe hífen nas palavras compostas que têm entre os termos um elemento de ligação (artigo, conjunção, preposição ou pronome).

Exemplos: corpo a corpo (substantivo e advérbio), passo a passo (substantivo e advérbio), arco e flecha, general de divisão, lua de mel, pé de moleque, ponto e vírgula, não me toques (melindres), um disse me disse, um deus nos acuda, um(a) maria vai com as outras, um pega pra capar, carne de sol, dor de cotovelo, pau de sebo, (um) faz de conta, queda de braço, (forró/trio) pé de serra, fim de semana, bicho de sete cabeças, mão de obra, quarta de final, dia a dia (substantivo e advérbio).

Olho vivo, pois há exceções! Ei-las:

a) água-de-colônia, arco-da-velha, cor-de-rosa, mais-que-perfeito, pé-de-meia (as economias de uma pessoa), ao deus-dará e à queima-roupa;

b) os compostos entre cujos elementos há apóstrofo, como cobra-d’água, caixa-d’água, mestre-d’armas, mãe-d’água e olho-d’água;

c) os nomes de espécies botânicas e zoológicas, como andorinha-do-mar, bem-te-vi, cana-de-açúcar, coco-da-baía, dente-de-leão, feijão-carioca, feijão-verde, joão-de-barro, limão-taiti e mamão-havaí;

d) os adjetivos pátrios derivados de topônimos compostos, como cruzeirense-do-sul, florentino-do-piauí e mato-grossense-do-sul.
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BEM FEITO ou BENFEITO?

Segundo o novo acordo ortográfico, "bem" se agrega com hífen a palavras com que ele forma uma unidade semântica (adjetivo ou substantivo composto): bem-aventurado, bem-criado, bem-humorado, bem-educado, bem-nascido, bem-sucedido, bem-vindo, bem-visto (estimado).


Mas não para nisso: pelo mesmo acordo, "bem" se aglutina com o termo seguinte em formações como benfazejo, benfeito, benfeitor, benquerença, benquerer, benquerido, benquisto.


Sem dúvida, “benfeito” é a grande novidade que o acordo ortográfico trouxe no caso de palavras compostas com “bem”.


E o chato é que é mais um complicador para quem escreve, pois nem sempre será “benfeito”.


Quando, por exemplo, o conjunto representa um advérbio modificando um verbo/particípio, escreve-se “bem feito”. Exemplo: “O bolo foi bem feito por Maria”.


Repare que o exemplo é uma oração na voz passiva e que é possível a inversão dos termos: “O bolo foi feito bem por Maria”.


Além disso, se “bem” sair da frase, o sentido não será prejudicado: “O bolo foi feito por Maria”.


Também é “bem feito”, separado, quando é uma expressão interjetiva: “Bem feito para você por não seguir meus conselhos!”


E quando escrevemos “benfeito”, junto?


Quando o conjunto “bem + feito” (= benfeito) representa um adjetivo qualificando um substantivo: “Um bolo de noiva benfeito é trabalhoso”.


Repare que neste caso a inversão dos termos resulta numa frase estranha: “Um bolo de noiva feito bem é trabalhoso”.


E, se “bem” sair, o sentido será prejudicado: “Um bolo de noiva feito é trabalhoso”.
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Por trás das palavras

Geralmente é bem explícito o parentesco entre palavras.


Não há dúvida de que "cavaleiro", "cavalheiro" e "cavalgada" são da família de "cavalo".


Nem de que "cabeleira", "cabeleireiro" e "cabeludo" pertencem à de "cabelo".


Mas existem relações que se apagam com o tempo.


"Astro", "astrologia" e "desastre" têm a mesma origem, o latim "astru".


Em "desastre" o prefixo "des-" é uma negativa, informa que não existe uma influência positiva dos astros.


"Dom", "dona", "doação", "condomínio", "dominar" e "domingo" são filhas de "dominus", palavra latina que significa "senhor".


Do mesmo modo que "donzela", diminutivo de "dominicella" (senhorita).


Por falar em "senhor", "czar" provém de "Caesar", "César" em latim, que no alemão deu outro fruto, a palavra "kaiser".


César lembra guerra, guerra lembra armas, e então chegamos a "armário", que veio do latim "armarium", lugar onde se guardavam armas.


Do tempo do imperador romano para cá muita coisa mudou.


A palavra "candidato" nasceu naquela época como "candidatus", derivada de "candidus", o mesmo que branco, alvo, puro.


Na antiga Roma, os políticos tinham o costume de vestir uma toga branca na época de eleição, para levar o eleitor a acreditar que eles eram "puros".


Parece que a estratégia funcionava, porque o latim "corruptione" designava apenas o processo natural que acontece ao fim de todos nós, o apodrecimento da carne.


Hoje em dia "corrupção" (ou "corrução") virou sinônimo de suborno, de roubalheira.


Para saciar o apetite dos corruptos, só mesmo com muito imposto e com muito trabalho.


A propósito, "imposto" e "trabalho" são palavras perfeitas, mostra-nos a etimologia, para nossa trágica realidade.


Ambas vieram do latim, a primeira de "impositu", aquilo que é realizado à força, sem autorização; a segunda de "tripalium", um instrumento de tortura usado pelos romanos, três estacas afiadíssimas cravadas no chão à espera de um escravo.
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